A conjuração dos losers
E se o vírus foi criado em laboratório para que todos os losers do
planeta pudessem recuperar seus ex?
Paul B. Preciado
(br/autores/paul-b-preciado) 29mar2020 09h15
Fiquei doente em Paris na quarta-feira 11 de março, antes do decreto do governo
francês que determinou o confinamento da população, e assim que saí do leito,
no dia 19, pouco mais de uma semana depois, o mundo tinha mudado. Quando
me deitei, o mundo estava próximo, coletivo, viscoso e sujo. Quando saí do leito,
tinha se tornado distante, individual, seco e higiênico. Durante a doença, eu não
conseguia avaliar o que acontecia do ponto de vista político ou econômico, pois a
febre e o desconforto se sobrepunham à minha energia vital. Ninguém é filósofo
enquanto a cabeça está explodindo. De vez em quando eu olhava as news, o que
só aumentava o mal-estar. A realidade era indissociável de um sonho ruim, e a
primeira página dos jornais era mais desestabilizante que o pior pesadelo
causado pelos meus delírios febris. Durante dois dias inteiros, decidi não abrir
nenhum site na internet, como uma prescrição anti-ansiedade. É a isso e ao óleo
essencial de orégano que atribuo a minha cura. Não tive dificuldade em respirar,
mas tive dificuldade em pensar que continuaria a respirar. Não tinha medo de
morrer. Tinha medo de morrer sozinho. Entre a febre e a ansiedade, pensei que
os parâmetros de organização do comportamento social tinham mudado para
sempre e não poderiam nunca mais ser modificados. Foi o que senti, com a força
de uma evidência que me atravessava o peito, à medida que a minha respiração
se tornava mais fácil. Tudo permaneceria para sempre nessa nova forma que as
coisas tomaram. A partir de então, teríamos acesso a formas de consumo digitais
sempre mais excessivas, mas os nossos corpos, os nossos organismos físicos,
seriam privados de todo contato e de toda vitalidade. A mutação tomaria a forma
de uma cristalização da vida orgânica, de uma digitalização do trabalho e do
consumo, e de uma desmaterialização do desejo.
Os que eram casados a partir de agora estavam condenados a viver confinados 24
horas por dia com a pessoa que esposaram, não importa se a amassem ou a
detestassem, ou melhor, os dois ao mesmo tempo, o que, diga-se de passagem, é a
coisa mais comum: o casal é regido por uma lei da física quântica segundo a qual
não há oposição entre termos contrários, mas por uma simultaneidade de fatos
dialéticos. Nessa nova realidade, aqueles dentre nós que perderam o amor ou que
não o encontraram a tempo, ou seja, antes da grande mutação do Covid-19,
estávamos condenados a passar o resto da vida completamente sós.
Sobreviveríamos, mas sem toque, sem pele. Os que não ousaram dizer a alguém
que amavam que o amavam não poderiam se juntar a ele, nem mesmo se fosse
possível expressar o seu amor, e deviam agora viver para sempre na espera
impossível de um encontro físico que não acontecerá nunca. Os que escolheram
viajar ficarão para sempre do outro lado da fronteira, e os burgueses que foram
para a praia ou para o interior para passar os dias de confinamento em suas
agradáveis residências secundárias (tadinhos!) nunca mais poderão retornar à
cidade. As casas deles seriam requisitadas para receber os sem-teto que, por sua
vez, à diferença dos ricos, viviam permanentemente na cidade. Tudo seria fixado
sob a forma nova e imprevisível que as coisas tomaram depois do vírus. O que
parecia ser um encerramento temporário seria prolongado pelo resto da vida.
Talvez as coisas mudassem de novo, mas não para aqueles que entre nós
tínhamos mais de quarenta anos. Era isso a nova realidade. A vida depois da
grande mutação. Perguntei-me, então, se valeria a pena continuar a viver assim.
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A primeira coisa que fiz ao sair da cama depois de ficar doente com o vírus
durante uma semana tão imensa e estranha quanto um novo continente foi me
fazer esta pergunta: em quais condições e de que maneira valeria a pena
continuar a viver? A segunda coisa, antes de encontrar uma resposta para esta
pergunta, foi escrever uma carta de amor. De todas as teorias da conspiração que
li, a que mais me seduziu foi aquela que diz que o vírus foi criado por um
laboratório para que todos os losers do planeta pudessem recuperar os seus ex,
sem por isso serem verdadeiramente obrigados a reatar com eles.
Salpicada com o lirismo e a angústia acumulados durante uma semana de
doença, medos e dúvidas, a minha carta a Ex não era apenas uma declaração de
amor tão poética quanto desesperada, mas era principalmente um documento
vergonhoso para quem assinava. Mas, se as coisas não podiam mais mudar, se
aqueles que estavam longe não pudessem nunca mais se tocar de novo, que
importância teria o fato de ser assim tão ridícula? Que importância haveria agora
em dizer à pessoa amada que você a ama, sabendo que muito provavelmente ela
já esqueceu você, ou substituiu, que de qualquer maneira você não a puder rever
nunca mais? O novo estado de coisas, em sua imobilidade escultural, estabelecia
um novo grau de what the fuck, até de seu próprio ridículo.
Escrevi aquela linda e horrivelmente patética carta à mão, pus num envelope
branquíssimo e escrevi nele, com minha melhor caligrafia, o nome e o endereço
de Ex. Me vesti, pus máscara, luvas e sapatos, os quais havia deixado na porta, e
desci até a entrada do prédio. Ali, seguindo a regra do confinamento, não saí à
rua, mas me dirigi até o lixo, no pátio interno. Abri a caçamba amarela e joguei a
minha carta a Ex – era de papel reciclável. Subi novamente, devagar, até o meu
apartamento. Deixei os sapatos na porta. Entrei, tirei a calça e guardei numa
sacola de plástico, retirei a máscara e deixei na varanda, para arejar, tirei as luvas
e joguei no lixo, lavei as mãos durante dois intermináveis minutos. Tudo,
absolutamente tudo, estava fixado na forma tomada depois da grande mutação.
Voltei ao meu computador e abri o meu correio eletrônico: e lá estava uma
mensagem de Ex, intitulada “Estou pensando em você durante a crise do vírus”.
(Tradução de Paulo Werneck)
Publicado em https://www.quatrocincoum.com.br/br/artigos/f/a-conjuracao-dos-losers
VIRUS : ENCONTROS E DESENCONTROS
por Thereza Wachholz
A pandemia nos deixa nostálgicos, cheios de lembranças. Tenho vontade de saber, de saber notícias...
Voltam à minha mente pessoas queridas que um dia fizeram parte integrante da minha vida e ... que, se perderam, no torvelinho da mesma. Foram encontros que fugiram apenas por circunstâncias do destino.
Fizeram, sem querer, querendo, parte da minha construção pessoal, foram “bons encontros”, como diria o filósofo Spinoza.
Dá saudades, saudades do que foi e do que não foi, mas a conclusão que chego ao longo dessa trajetória do covid é que na correria do dia a dia vamos simplesmente perdendo pessoas, perdendo lembranças, largando tudo pelo caminho
De repente, ficamos em casa, cheios de lembranças e sonhos. E a vida mudou, você mudou, tudo mudou.
Talvez por diferenças planetárias ou galácticas, não possamos mais nos reencontrar.
A medida em que vamos envelhecendo temos até medo de tentar. Deve ser o medo de uma separação definitiva, o medo da morte. E passamos a nos perguntar será que ele ou ela ainda vive?
Agora o vírus passa a tornar esse devaneio um pensamento atual.
No presente, há um motivo para ligar: saber como vai passando nestes dias de reclusão.
E foi assim, nesta checagem, que nos demos conta que um amigo que não víamos há dois anos, havia falecido: estarrecedor. Tinha ocorrido no final do ano passado e nem foi de covid! Estava idoso, tinha parado de nos encontrar, engajado nas múltiplas tarefas do dia a dia. Tragado primeiro pela memória do deixar para depois, a seguir, pela intensa correria da vida.
Sem adeus, como os atuais pacientes que falecem de covid, resta apenas a saudade, a nossa lembrança: a falta de um alegre sorriso, emoldurado por aquele brilhante dia de sol que iluminava o campo de golfe do Itanhangá Golf Clube no rigor do verão.
Após ler o texto acima, do filósofo espanhol Paul Preciado, tenho a todos um conselho a dar, de um ser tremendamente triste e arrependido. Não largue nenhum ex pelo caminho. Toque para ele/ela, agora. Faça uma conexão.
A propósito, por onde andam minha amiga Sandra, que pulava corda comigo no recreio aos seis anos, junto com a Regininha?