sábado, 26 de novembro de 2011

Três gêneros do conhecimento

Na parte 2 da Ética, Spinoza diz que o Homem pode conhecer a si e a Natureza de três maneiras, e apresenta os três gêneros de conhecimento:
1º gênero do conhecimento:
- conhecimento por experiência vaga, por exemplo, sei que o fogo queima porque me queimei ao colocar a mão sobre ele.
- conhecimento por ouvir dizer, por exemplo, sei que tenho 45 anos porque me disseram a data do meu nascimento.
Portanto, temos idéias inadequadas de nós e das coisas . No primeiro gênero do conhecimento, só conhecemos efeitos.  Não conhecemos as causas que provocam esses efeitos em nós. Conhecemos a realidade pelos vestígios que ela deixa em nós.  Conhecemos por signos (imagens) que se encontram na nossa imaginação.  Esses signos da realidade estão sempre associados a afetos passivos (= paixões).  Nós somos passivos, não conhecemos as coisas pelas causas.
É um modo de existência passivo, pois o Homem está separado daquilo que pode.
É o poder da imaginação... quando o Homem imagina, ele age de acordo com os efeitos.
***Ordem dos Efeitos: A partir dos encontros, só conheço os efeitos.

2º gênero do conhecimento:
   É o conhecimento pela Razão, é um conhecimento adequado.  Todas as coisas estão em relação entre si.  O Homem passa a conhecer as causas dos efeitos resultantes desses encontros.  Eu passo a saber porque o fogo queima.  Eu vou procurar, pela razão, a causa do fogo queimar.  Conhecer a causa é conhecer a estrutura da coisa.  É o conhecimento científico adaptado à vida.  Quando o Homem conhece as causas, elimina as supertições.  O Homem passa a ter um conhecimento da Natureza através de um conhecimento adequado, ou seja, das causas.   Quando o Homem age com conhecimento adequado, passa a agir ativamente e expressivamente.
***Ordem das relações: usando a razão, conheço as causas.

gênero do conhecimento:
   Podemos chamar de ciência intuitiva.  A Intuição é um conhecimento adequado, pois conheço as causas e a essência de todas as coisas, inclusive Deus (como um ser imanente).  Através da Intuição, passo a ter o conhecimento das essências, e não só das relações.  Essência, como grau de potência, se conhece através do intelecto.  A condição da Intuição é a Razão.  O Homem compreende as coisas como graus intensivos, como graus de potência.  Por exemplo, você é um grau de potência da potência infinita da Natureza. Ao entender a essência, se chega à Beatitude, que é a condição do Homem em harmonia com a Natureza.
***Ordem das essências: conheço as essências singulares que se exprimem nas relações.

Trazendo para a vida cotidiana...
Mas ninguém nasce racional, menos ainda intuitivo! Vivemos imersos na Imaginação...
Como a imaginação está em sintonia com os afetos, ela é que diz se um encontro é bom ou mau para você.  Para vencer o medo é preciso substituir a tristeza pela alegria. É preciso perseverar na vida promovendo os bons encontros (que aumentam a sua potência, que te fortalecem, que causam aumento de alegria).  Ao se esforçar, você está querendo se tornar racional.  A gênese da razão está no esforço...um esforço para se tornar racional.   A Razão não se transmite, ela é produto da potência.  Buscar conhecimento é constituir idéias adequadas.
A Liberdade é justamente a possibilidade de você exprimir a sua potência.  É vencer o medo, as supertições e as imaginações.  Só me torno livre quando eu presido a ação, quando conheço as causas, isto é, quando me torno ativo.  Ser livre é agir, com conhecimento das causas.

Mau encontro e Bom encontro

Só através da experiência, podemos saber o que pode o nosso corpo. Só através da experiência, podemos saber o que pode a nossa mente.  Se eu amplio a minha capacidade de ser afetado, amplio a minha capacidade de conhecimento.

Spinoza define como Conatus a potência que o Homem tem para perseverar na existência.
Alegria e Tristeza são afetos, são paixões.
Spinoza define Alegria como aumento de potência, e define Tristeza como diminuição de potência. 
Quando dois corpos se encontram e se compõe, há aumento de Alegria.
Quando dois corpos se encontram e se decompõem, há aumento de Tristeza.

O homem só se sente livre quando ele vai ao limite do que ele pode.  Quando ele se sente separado do que pode...vem a depressão, a tristeza, o constrangimento.
Se afaste do mau encontro...Busque o BOM ENCONTRO!
Selecione seus afetos para que os bons encontros aumentem a sua potência.

postado por wildcat

Sobre a morte

Um corpo consiste de relações entre uma multiplicidade de partículas.  Uma idéia consiste de  relações entre uma multiplicidade de idéias. Mente e corpo são da mesma ordem.  A minha idéia existe no momento em que meu corpo existe, de modo finito.  E deixa de existir (de modo finito) quando o corpo deixa de existir.  As relações são eternas.  Ao morrer, você volta para a Substância. 
A morte é trágica para o indivíduo.  Para a Natureza são novas composições.  Ao encarar a morte, você valoriza mais a vida.
O resto... religiões, crenças, supertições... estão na imaginação!  As religiões por serem monopólio da imaginação, se tornam um poder tirânico.

postado por wildcat

Ética, parte 2: da origem e da natureza da mente (alma)

   Spinoza se opõe a Descartes...
Descartes divide o ser humano em dois: o corpo é uma substância e a mente (alma) é outra substância.  Ele é um pensador dualista. Ele diz que quando a alma padece, o corpo padece.  E quando o corpo age, a alma padece.  Os espíritos muito passionais caem sempre no erro.  Só quando o corpo age, a alma padece.
Spinoza rebate isso...
Mente e Corpo são um só indivíduo. Mente (alma) é atributo pensamento.  Corpo é atributo extensão.
Mente é a idéia do Corpo.  Corpo é o ideado da Mente.
O que acontece no corpo, acontece simultaneamente à idéia do corpo (mente).
Spinoza combate o antropormofismo, onde Deus é um ser feito à imagem e semelhança do Homem.  No antropormofismo Deus concebe, e DEPOIS  cria.  Para Spinoza, Deus pensa tal como age.  Agir e pensar são simultaneos.  Spinoza defende a eternidade da Natureza, mas o modos são finitos e mutáveis.  O seu Eu não é eterno... é finito e tem duração.
Todas as coisas existentes são modos (= afecções) que têm Deus como causa, ou seja, são modos da Substância.

1) Há uma identidade de ordem: a nossa mente só percebe idéias.  O nosso corpo é afetado por outros corpos.
2) Há uma identidade de conexão: tudo o que acontece no seu corpo, afeta a sua mente, simultaneamente.

A Natureza é inteligível nela mesma.  O Homem possui a potência de conhecê-la. A Natureza se mostra...não há nada oculto, nada obscuro...Portanto, afasta os profetas, os intérpretes da Natureza e os sacerdotes.

postado por wildcat

Pensamento e Extensão

O ser humano só percebe dois atributos, extensão e pensamento, porque somos corpo e idéia.
1) Todos os corpos são extensos, ou seja, ocupam um espaço. A extensão como qualidade comum é infinita.
2) Todos as mentes têm em comum o pensamento. O pensamento é infinito.
O Pensamento e a Extensão não estão no homem, mas na Natureza. Deus é imanente, é ¨Natura Naturante¨. A Natureza pensa e é extensão. Coisas finitas e existentes são modos da Substância.  A cadeira é pensamento e extensão...Todos os modos da Substância são pensamento e extensão.
Portanto, tudo que existe no mundo é Modo da Substância, tem atributos pensamento e extensão.
Tempo e Eternidade coexistem.  Tempo é um modo da Substância.

postado por wildcat

Deus é imanente, não transcendente

Aqui vai o resumo de várias palestras que assisti sobre Spinoza 
Spinoza nega a transcendência de Deus. O Deus dos cristãos e dos judeus cria o mundo a partir da sua vontade.  Spinoza quer separar Teologia de Filosofia.  Teologia é uma Moral disfarçada.  Filosofia é a prática da Liberdade.  O mundo Moral exige uma renúncia ao desejo e uma sujeição aos mandamentos.  Spinoza defende uma Ética.
O livro ¨Ética¨, parte 1: de Deus
Para Spinoza, Deus é Substância, Deus é a Natureza. A Natureza é Substância (existe em si, por si e se concebe).  Por definição: Causa de Si  é tudo aquilo cuja essência implica na existência.
A Substância tem infinitos atributos, dos quais conhecemos Extensão e Pensamento.
Atributo é o que o intelecto percebe da Substância.
Todo o resto é modo da Substância.  Modo é afecção da Substância, por exemplo, cadeira, homem ou árvore... Logo, Deus não transcende os Modos, é imanente a eles.  Deus é indiferente ao Bem e ao Mal.  Logo, Deus não julga os homens de fora do mundo, a Substância (a Natureza) faz parte do mundo!

Resumindo: Deus (Substância) é um ente absolutamente infinito, que existe em si, por si, com infinitos atributos, onde cada atributo exprime uma essência eterna e infinita, dos quais nosso intelecto só conhece a extensão e o pensamento.

postado por wildcat

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Porque existe hoje um grande interesse por Filosofia, em especial Spinoza?

Podemos tentar explicar o mundo de três maneiras: através da Ciência, da Religião ou da Filosofia.
As Ciências avançam com o conhecimento físico do mundo, mas com frequência se deparam com dilemas éticos incontornáveis.
As Religiões, através do Mito Narrativo de Origem, têm a vantagem de dar certezas e respostas para um mundo incerto, injusto e incompreensível. Elas têm uma dimensão existencial que dá um referencial ao Homem.  Porém hoje, com seus dogmas e contradições, já não explicam o mundo do séc. XXI.

Spinoza separa Teologia de Filosofia.  Spinoza nega uma Moral que enfraquece o Homem, e põe no lugar uma Ética. Afinal, nós temos de ser capazes de construir regras de vida para consolidar uma felicidade aqui. 

Partindo da natureza do ser humano, admitindo suas emoções e buscando superar seus medos e supertições, Spinoza constroi, racionalmente, um caminho possível para se viver em sociedade: Contrato Social, Busca do Conhecimento Racional através de Idéias Adequadas e Aceitação de uma Natureza Imanente, sem deuses.

Mas será que isso responde às questões do Homem do séc. XXI?