domingo, 17 de agosto de 2014

Você consegue encarar a tragédia que é a vida?



Você consegue encarar a tragédia que é a vida?

 A perda de pessoas queridas, a sua própria morte... para enfrentar isso criamos Deus. Deus torna a existência mais palatável, velando a crua realidade num sonho que aspiramos alcançar. Velar no sentido de véu, uma cortina opaca que nos protege da tragédia da realidade. Aliás, o nosso corpo é um véu, uma cortina que protege a nossa consciência da crua realidade, filtra a nossa apreensão do mundo. A realidade da qual tomamos consciência é apenas uma vista parcial da Substância.
A filosofia tem tentado por séculos se separar da teologia. Tirar Deus do pensamento filosófico não é fácil. Spinoza ao definir a Substância como Deus, tenta sutilmente, se apropriando de um vocabulário corrente, construir um outro arcabouço de pensamento que exclui o sobrenatural.
Mesmo hoje, o conceito de Substância é mal interpretado. No meu grupo de estudos há quem diga que Substância é o Universo. Mas qual a definição de Universo você está se referindo? No Ensino Médio aprendemos uma definição de Universo newtoniana, e hoje com a Teoria das Cordas temos o multiverso composto de vários universos. Nenhuma destas definições se aproxima da definição de Substância (segundo Spinoza).
A primeira definição supõe uma visão mecanicista, onde Descartes e Newton afirmam que o movimento é externo à matéria, introduzido por Deus no mundo material. Spinoza concebe movimento como completamente inerente à matéria e inseparável do corpo, portanto a Substância se expressando em seus modos.
A segunda definição supõe a visão da física quântica atual. A Teoria das Cordas, com multiversos, onde vários universos coexistem mas não se comunicam, tendo leis independentes e diferentes do nosso universo. Ora, Spinoza concebe a Substância como algo sujeito às suas próprias leis, contínuo e passível de entendimento pelo ser humano, através de ideias adequadas das causas. Portanto, não há descontinuidade.
Então, o termo Substância, segundo a definição de Spinoza, ainda é melhor, pois implica todos os conceitos acima.
Nos séculos seguintes a Spinoza, Deus foi finalmente afastado da filosofia e, com o cartesianismo e o empiricismo, a ciência foi se apropriando de várias discussões da filosofia. Por exemplo, como tomamos consciência do mundo sensível passou a ser um ramo da ciência. E a ciência também evoluiu para muitas outras áreas.  Então temos, de um lado, Deus suprindo a necessidade de velar a realidade para a nossa consciência, e do outro, a ciência tentando entender esta mesma realidade, a dos modos da Substância, com suas próprias leis e potencialmente cognoscível.
Se a filosofia tirou de dentro de si a teologia e a ciência...o que sobrou para filosofar? O homem. Ou seja, como os homens podem conviver entre homens. Daí a teoria dos afetos e o Tratado Político de Spinoza.
Mas isso é uma outra história.

sexta-feira, 21 de março de 2014

Reproduzo aqui o excelente artigo  de Nizan Guanaes, e concordo com ele!

Procura-se uma nova classe alta...
por Nizan Guanaes
O que os americanos e ingleses mais sofisticados têm em comum? Cultura.
Livros e dinheiro são uma mistura perfeita para elegância, savoir faire e bom gosto.
Infelizmente o Brasil, que copia tanta coisa destes dois grandes países, não aprendeu a copiar essa ainda. A pobreza do rapaz rico dos camarotes, estampada na capa da Vejinha, mostra uma classe alta inculta que beira as raias do constrangimento num país cheio de desigualdades.
Ninguém que tenha aberto um livro será capaz de, num mundo desigual como o nosso, abrir champanhes magnum a rufar de tambores e piscar de luzes.
Dinheiro sem livro faz garotos ruidosos e meninas caladas. Gente mal vestida com as melhores grifes. E que não sabe se comportar no mundo.
Gente caipira.
A começar, não sabem falar inglês, inaceitável num mundo global. O mais lamentável ainda é que falam mal português também.
A vida social em Nova York e Londres se passa dentro de universidades e museus, misturando caridade, diversão e cultura. Quando você conversa com pessoas como Tina Brown e Arianna Huffington, elas não são apenas locomotivas sociais, elas são enciclopédias vivas. Sem cultura e sem refinamento intelectual, seremos sempre sinhozinhos e sinhazinhas capiras  mesmo que a gente compre todas as roupas, relógios, fivelas, todos os aviões e carros do mundo.
Este país, apesar de todos os desafios que tem, já é um gigante global. E além de uma nova classe média, ele precisa de uma nova classe alta.
Harvard, Yale, Stanford, Oxford, Cambridge… são centros sociais desse mundo moderno. É lá nessas escolas que se formam o establishment social que vai influir no mundo. No Brasil, nós ainda achamos que esse establishment se forma em Nammos, em Mikonos, ou no Club 55, em St.-Tropez.
Nasci no Pelourinho. Fui a uma universidade bem mais ou menos. Mas em vez de dar uma Ferrari pro meu filho, coloquei ele na melhor escola que São Paulo tem: a Graded. E ele, por conta própria, escolheu fazer o colegial em uma das melhores prep schools dos Estados Unidos. A escola Exeter foi fundada em 1781. Lá estudou Mark Zuckerberg. A biblioteca tem 250 mil livros. E Antonio está estudando latim, fazendo remo e sofrendo pra burro pra entrar na disciplina da escola. Mas isso sim é uma herança.
Meu filho leu mais do que eu, sabe mais do que eu. Está se tornando um homem melhor por dentro e por fora.
Eu acredito que desse jeito construo não só um futuro pra ele, mas construo um futuro melhor pro país. Eu me dedico pessoalmente à educação de minhas crianças. Cada uma tem seu caminho e seu estilo. Passei, por exemplo, uma semana mostrando a Antonio o que era Istambul. E três horas jantando com Zeca, eu e ele, num restaurante três estrelas Michelin em Osaka.
Os brasileiros melhores que nós formamos são a maior contribuição que podemos dar ao futuro desse país. Claro que o caminho não é fácil. Antonio, por exemplo, acostumado à boa vida de um menino em sua idade em São Paulo, luta para se enquadrar à vida espartana e focada em Exeter. Ao acompanhar meu filho e sua luta na tradicional escola, vejo de posição privilegiada como os Estados Unidos e a Inglaterra fabricam grandes mentes a ferro e fogo. Estudantes de história que viram fotógrafos ou vão fazer moda, ou simplesmente serão grandes anfitriões.
Mas em tudo que forem fazer terão a marca indelével da boa educação. E é isso, educação, que nós, a elite, desejamos e cobramos tanto para os pobres que eu cobro para os ricos. Porque é elite estudada, culta e sensível um dos maiores luxos que este país mais precisa.
No site da Al Jazeera do dia 18 de março de 2014 tem um artigo de Talha Jalal sobre "A Liberação da Mulher"
 http://www.aljazeera.com/indepth/opinion/2014/02/women-liberty-2014222143534187756.html
Gostaria de responder a este artigo da seguinte maneira.

Prezado Sr. Jalal,
 Seu artigo foi um sopro de esperança para as mulheres muçulmanas. E eu cito tres frases suas:
1) "...é essencial que mulheres ganhem status igual ao dos homens em sociedades que estão em transformação."
2) "...promover liberdade e igualdade para as mulheres..."
3) "A marca da liberdade é que toda mulher pode ser como quiser..."
Mas o que voce propõe para conseguir isto?  O que sugere para conseguir estas mudanças?
Como conciliar a Lei da Sharia com "Todos os seres humanos nascem e são livres e iguais em direitos"?


In Al Jazeera's site, there is an article by Tahla Jalal, "On Women's Liberation"
http://www.aljazeera.com/indepth/opinion/2014/02/women-liberty-2014222143534187756.html
I would like to broaden the discussion...


Dear Mr. Jalal,
Your article has inspired hope for muslim women. And I quote three phrases:
1) "...essential that women gain a status equal to that of men in the societies that are experiencing change"
2)"...promote freedom and equality for women..."
3)"The hallmark of liberty is that every woman may be the way she wants..."
How would you go about it? What do you suggest to promote these changes? How to reconcile Sharia Law with "All human beings are born free and equal in dignity and rights."?