Você consegue encarar a tragédia que é a vida?
A perda de pessoas
queridas, a sua própria morte... para enfrentar isso criamos Deus. Deus torna a
existência mais palatável, velando a crua realidade num sonho que aspiramos
alcançar. Velar no sentido de véu, uma cortina opaca que nos protege da tragédia
da realidade. Aliás, o nosso corpo é um véu, uma cortina que protege a nossa
consciência da crua realidade, filtra a nossa apreensão do mundo. A realidade
da qual tomamos consciência é apenas uma vista parcial da Substância.
A filosofia tem tentado por séculos se separar da teologia.
Tirar Deus do pensamento filosófico não é fácil. Spinoza ao definir a
Substância como Deus, tenta sutilmente, se apropriando de um vocabulário
corrente, construir um outro arcabouço de pensamento que exclui o sobrenatural.
Mesmo hoje, o conceito de Substância é mal interpretado. No
meu grupo de estudos há quem diga que Substância é o Universo. Mas qual a definição
de Universo você está se referindo? No Ensino Médio aprendemos uma definição de
Universo newtoniana, e hoje com a Teoria das Cordas temos o multiverso composto
de vários universos. Nenhuma destas definições se aproxima da definição de
Substância (segundo Spinoza).
A primeira definição supõe uma visão mecanicista, onde
Descartes e Newton afirmam que o movimento é externo à matéria, introduzido por
Deus no mundo material. Spinoza concebe movimento como completamente inerente à
matéria e inseparável do corpo, portanto a Substância se expressando em seus
modos.
A segunda definição supõe a visão da física quântica atual.
A Teoria das Cordas, com multiversos, onde vários universos coexistem mas não
se comunicam, tendo leis independentes e diferentes do nosso universo. Ora,
Spinoza concebe a Substância como algo sujeito às suas próprias leis, contínuo
e passível de entendimento pelo ser humano, através de ideias adequadas das
causas. Portanto, não há descontinuidade.
Então, o termo Substância, segundo a definição de Spinoza, ainda
é melhor, pois implica todos os conceitos acima.
Nos séculos seguintes a Spinoza, Deus foi finalmente afastado
da filosofia e, com o cartesianismo e o empiricismo, a ciência foi se
apropriando de várias discussões da filosofia. Por exemplo, como tomamos
consciência do mundo sensível passou a ser um ramo da ciência. E a ciência também
evoluiu para muitas outras áreas. Então
temos, de um lado, Deus suprindo a necessidade de velar a realidade para a
nossa consciência, e do outro, a ciência tentando entender esta mesma
realidade, a dos modos da Substância, com suas próprias leis e potencialmente cognoscível.
Se a filosofia tirou de dentro de si a teologia e a
ciência...o que sobrou para filosofar? O homem. Ou seja, como os homens podem conviver
entre homens. Daí a teoria dos afetos e o Tratado Político de Spinoza.
Mas isso é uma outra história.
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