sábado, 24 de outubro de 2020

 

A República de Platão

       

          Ateniense de família ilustre, Platão (427-347 a.C.) se dedicou à arte de governar, a buscar o melhor regime político possível para o comando de uma cidade. Se preocupou com quem deveria ser o homem certo para deter o poder do Estado ideal e tentou designar uma estrutura de poder que atendesse com justiça a todos os cidadãos.

          Estas questões são tratadas na República de Platão. Dez livros nos quais se entrelaçaram conceitos estéticos, éticos e jurídicos expostos por seu mentor Sócrates. Politeia é o nome grego que vai designar esta República. Kallipolis refere-se ao nome da cidade - em grego, “cidade bela”.

         Kallipolis teria como governador um “rei – filósofo”, escolhido dentre aqueles que teriam uma aptidão especial para o conhecimento. Este acoplaria esta aptidão a uma formação extensa.

         Este governo teria o nome de Sofocracia o que significaria o governo dos sábios.

         Para Platão a democracia, após a morte de Sócrates, se mostrou um governo inoperante e injusto. Isto porque Sócrates, foi julgado por um tribunal democrático no qual tinham o mesmo peso tanto os votos dos sábios quanto o dos ignorantes. Eram deliberações que não apresentavam, em sua concepção,um critério de valor apurado e justo.

         Assim, por Sócrates ter sido condenado na vigência deste regime, Platão passou a descartar esta forma de governo por considerá-la inadequada às condições de justiça fundamentais à sua forma de pensar.

          Este comportamento, iria erigir uma cidade desequilibrada e injusta a seus padrões de verdade e justiça.

          Platão acredita que a justiça é a maior de todas as virtudes e passa seus dois primeiros livros dedicando-se a discussões sobre o tema.

          Nesta narrativa Sócrates debate com Céfalo, seu filho Polemarco, Trasímaco, Glauco e Adimanto.

          Todos apresentam teorias que são refutadas por Sócrates. Acabam, porém, concordando que a justiça é preferível à injustiça e, finalmente no livro IV partem para a elaboração de uma cidade perfeita, dominada segundo seus critérios por equilíbrio, paz e harmonia.

           Orientados pela ideia de justiça, Sócrates, Glauco e Adimanto projetam, segundo o relato de Platão, a cidade ideal.

           Utopia Social por excelência, esta seria dividida em três classes (partes) que agiriam de forma harmônica e integrada.

            A primeira classe corresponderia aos cidadãos mais simples que cuidariam da agricultura, pecuária, artesanato, comércio. Estes seriam selecionados dentre os que possuíssem aptidão para tais trabalhos. A formação destes teria vinte anos de duração.

             A segunda classe, de acordo com os organizadores da cidade, narra Platão, seria formada por homens hábeis e fortes, os guerreiros, que formariam o exército. Estes, defenderiam a cidade dos invasores e ainda seriam responsáveis pela administração da mesma. A duração da formação destes teria trinta anos de prazo.

             Já a terceira classe exigiria maiores aptidões. Estudariam durante cinquenta anos se preparando para serem magistrados e governar a cidade. Seriam os sábios que acumulariam a sabedoria e a arte, consideradas necessárias ao bom funcionamento político da cidade. Era necessário ainda, que fossem dominados pela razão, o que os faria conter suas emoções e impulsos tornando-os homens mais justos e equilibrados.

             Na concepção dos organizadores desta cidade descrita por Platão as almas selecionadas pelos moradores da cidade teriam que conter bronze nos habitantes da terceira classe, prata nos da segunda classe e ouro nos da terceira classe.

             A educação e divisão das classes seria controlada pelo Estado que os selecionaria de acordo com a aptidão de suas almas.

             O fracasso deste projeto se deveu ao fato do homem ter que renunciar à sua subjetividade, espaço íntimo do indivíduo, os seja, como ele “instala” à sua opinião o que é dito. A conexão que faria do mundo externo com o seu mundo interno, resultando tanto em marcas singulares na formação do indivíduo quanto na construção de crenças e valores compartilhados na dimensão cultural que vão constituir a experiência histórica coletiva.

             O egocentrismo seria inaceitável sendo o altruísmo necessário para a existência da justiça. Isto porque todas as classes teriam que cumprir suas funções corretamente para que fosse estabelecida a igualdade entre todos os habitantes da cidade.

             Conclusão: esta seria uma cidade utópica.

Por Thereza C.  R. Wachholz

Bibliografia: Anotações de aula do professor Baptiste Noel Auguste Grasset -2020

                      A República de Platão – Editora Sapienza,, 2005

sexta-feira, 23 de outubro de 2020

Sócrates e a Cidade Ideal

 

Para os gregos clássicos, não há discontinuidade entre o indivíduo e a Constituição do Estado onde ele vive: o indivíduo sem o Estado é o mais abjeto dos homens  pois é forçado a viver à mercê dos outros, sejam eles animais selvagens ou homens. 

Sócrates, no diálogo Protágoras, propõe argumentar com Protágoras se arete[1]pode ser ensinada, como sustentam os sofistas. A conclusão é de que todas as virtudes são um saber, e elas podem ser ensinadas.

“E o leitor fica com a certeza de que a tese socrática que reduz a virtude ao conhecimento dos verdadeiros valores deve constituir a pedra angular de toda a educação”[2].

Sócrates reduz o problema moral a um problema de saber. Porém, Sócrates ainda não está satisfeito, e pressiona para saber qual é a essência da virtude, e qual o caminho para se chegar lá. 

Na obra Górgias[3], outro importante sofista, Sócrates segue o argumento dialogando com Górgias e com Polo, seu discípulo. Ele argumenta que “a vida do Homem divide-se em vida da psiqué e vida do corpo… e os cuidados da psiqué incumbem à política ou arte do Estado…O ramo da política a velar pela psiqué saudável é a Legislação; e a psiqué doente pede os cuidados da administração prática da justiça… A injustiça é um mal patológico da psiqué, e a justiça a sua saúde.”

Na obra “A República”, Sócrates dialoga com Glaucon, irmão mais velho de Platão, sobre qual seria o regime político ideal. Ele propõe um modelo de cidade com grande preocupação na educação das crianças. A educação tem como objetivo preparar o jovem à cidadania, portanto o cidadão é o produto da Constituição da cidade-Estado onde vive. Porém, ao analisar cada tipo de regime político, Sócrates avalia que os regimes políticos sempre degeneram ciclicamente, num eterno retorno. Com isso ele constrói uma cidade Ideal, com uma comunidade de mulheres, um rei-Filósofo, e homens justos que obedecem ao Estado interior da psiqué.[4]

Por conseguinte, o homem justo do Estado platônico não é o cidadão ideal do Estado efetivo, seja qual for a Constituição. Um tal homem é, por força, como Sócrates compreendeu perfeitamente, um intruso dentro desse Estado. Sempre disposto a devotar-se plenamente à causa do Estado ideal, no qual tem os olhos postos e que corresponde aos seus princípios morais, vive constrangido no Estado real.[5]

Na sua obra Leis, o Estado se apresenta no papel de educador.[6] Deste modo, é na formulação de leis que a suprema “virtude” do Estado platônico, a sophia, se revela e assim encontra a sua posição produtiva na vida da comunidade humana, de que a princípio parecia isolar quem a possuía. O filósofo se converte em legislador.[7]

 

 

Aristóteles e a “boa Política”

 

Aristóteles, aluno preferido de Platão, vai reformular o conceito de política ideal. Ele é um filósofo fértil na criação de conceitos: Biologia, Zoologia, Fisiologia, Ética, Política, Física, Metafísica, etc… Aristóteles retoma à Filosofia da φυσις. Ele inicia a sua obra Física retomando a Analogia da Linha Dividida (que equivale à Alegoria da Caverna); onde afirma quatro possíveis modos de conhecimento do Ser: do sensível ao inteligível,  sendo que o Ser só pode ser atingido pelo intelecto. E nessa obra Física, Aristóteles resolve a aporia entre o ser e o não-ser, entre o contínuo e o discreto. 

Como surgem as coisas? Como pode um boi comer capim e dentro dele ter sangue, ossos e carne? Como as coisas surgem do nada? Isso é o princípio da investigação que vai chegar até os nossos dias.

A discussão começa com Heráclito, que postula a mutação constante das coisas sensíveis e a consequente  impossibilidade de se apreender alguma coisa. Pois se tudo muda constantemente, não se pode aprender nada, pois aquilo já é outra coisa. Nada é igual a si mesmo em dois instantes diferentes. E isso é característica de toda a existência, e a consequência imediata disso é que não existe verdade. Os sofistas, por exemplo, postulam isso. Por isso eles consideram que a aparência retórica esgota aquilo que pode ser dito num discurso racional. A persuasão derrota qualquer verdade. 

Ao contrário, Parmênides postula que o mundo sensível é uma ilusão. Ele “separa o Ser de toda a geração e corrupção e o faz permanecer imóvel em si mesmo[8]”. O Ser é; e o não-Ser não é. “O Ser é alheio ao devir, é imutável, e portanto imortal, total e único, inabalável, eterno, onipresente, uno, coerente, indivisível, homogêneo, ilimitado e completo.[9]

Sócrates vai tentar operar uma síntese entre Heráclito e Parmênides, porém não efetua essa síntese, pois situa a ideia, a razão e a verdade na eternidade. Localiza a ideia no além, fora do mundo empírico, fora do mundo sensível. E isso não opera uma síntese, apenas justapõe duas realidades contraditórias.

Como dissemos acima, Aristóteles vai resolver essa aporia, essa aparente contradição entre o mundo sensível - numa constante mutação de objetos concretos, discretos e contáveis – e o mundo inteligível - eterno, indivisível, não-contável, e não acessível aos sentidos humanos. Aristóteles vai conciliar razão e natureza física. Na sua obra Física, ele usa a Matemática (razão, que lida com objetos eternos) para identificar na própria natureza física (mundo sensível e mutante) as razões intrínsicas do DEVIR. 

“A mudança é algo intrínsicamente incompleto… a entelecheia[10] é o estado natural do Cosmos… O Cosmos está sempre no processo ilimitado de se atualizar. O Ser não é estático, é ente (particípio presente do verbo ser); o Ser se torna ilimitatamente, infinitamente, eternamente.[11]

Razão e Natureza são reconciliadas em Aristóteles, e também vão ser reconciliadas na sua Filosofia Política. Ele não postula um regime político ideal para todos os povos, como Platão. Ele argumenta que toda existência natural almeja um tipo de Bem (essa é uma tese aceita por todos os filósofos), isso é, a eudemonia. Tudo o que existe tem uma razão e uma finalidade próprias. Ele vai distinguir entre a finalidade da Família e a finalidade do Estado, pois ao contrário do que dizem outros filósofos, Aristóteles afirma que são diferentes. Ele discute também a cidade como algo necessário para conservar a existência da família (proteção contra agressões externas) e a eficiência entre as pessoa (através da especialização dos trabalhos). As funções naturais também são racionais, pois geram um Bem maior. Um homem necessita, além da vida familiar, exercer seus direitos políticos de forma ativa.

Com Platão, os regimos políticos sempre se degeneravam ciclicamente. Aristóteles argumenta que os regimes podem ser bem administrados ou mal administrados. Por exemplo, uma Monarquia pode ser bem administrada, porém se mal administrada vira Tirania. Uma Aristocracia pode ser bem administrada, porém se for mal administrada vira uma Oligarquia. Uma República Constitucional pode ser bem administrada, porém se for mal administrada vira uma Demagogia. Os governos são de vários tipos e sempre dependem no ethos de seu povo.

O ponto fulcral de todo regime político é ter boa fé e agir em prol do Interêsse Público.

 

por Martha Simonsen Leal

*** Esse artigo é baseado nas notas de aula do Prof. Noel e o livro Paideia, de Werner Jaeger.***

[1] Arete é traduzido por virtude: mérito ou qualidade pelo qual alguém se destaca (piedade, justiça, prudência, coragem); não confundir com virtudes cristãs.

[2] Paideia, Jaeger, p.644.

[3] Górgias de Leontinos, criador da Retórica. Rhetor sdesigna o estadista, que numa democracia deve necessariamente ser um orador (Paideia, Jaeger, p. 649). 

[4] Paideia, Jaeger, p. 975.

[5] Paideia, Jaeger, p. 975.

[6] Paideia, Jaeger, p. 1301.

[7] Paideia, Jaeger, p. 1302.

[8] Paideia, Jaeger, p. 219.

[9] Paideia, Jaeger, p. 220.

[10] Entelecheia: ente-em-ato sendo ele mesmo.

[11] Essa discussão está melhor explicada na monografia Aristotle, the Being, the Infinite and Physics, p. 31ss, disponível em academia.edu.

sexta-feira, 11 de setembro de 2020

O Crème de la crème

                                                                                                 Por Cristina Benford Pernambuco

 

  A escolha do nosso novo professor de filosofia, prof. Noel, foi excelente! A capacidade de síntese e clareza dele é impressionante! 

  Explicar a Estética de 400 anos da Arte da Pintura, da Literatura e da Música em um curto espaço de tempo, e todos entenderem e adorarem é maravilhoso!

   A  partir do que foi dado, pude pesquisar e entender melhor uma série de conceitos filosóficos conhecidos por nós Artistas Plásticos, como por exemplo, a análise do Belo nas Artes dos sécs XVII, XVIII, XIX e as transgressões e questionamentos dos movimentos artísticos que ocorreram a partir do séc. XX, com o advento da Fotografia, que substituiu a pintura realista dos sécs anteriores, a Beleza passou para um plano menos importante,  a passagem do período clássico ao período romântico, do sujeito coletivo ao indivíduo singular.

 O que nos afeta, não precisava mais ser representado com fidelidade ao objeto, e sim de uma forma mais fiel à nossa sensibilidade, como no Movimento Impressionista, do final do Séc XIX e início dos XX, de Monet, Renoir, Van Gogh, e outros. 

  Revimos os conceitos filosóficos dos diversos movimentos que surgiram na Estética modernista, tais como o Movimento Construtivista Russo de 1913 de Malevich, o Manifesto Surrealista de 1924,  o Dadaísmo de Marcel Duchamp, que se seguiu , e o Abstracionismo dos anos 1950!

  Vimos o Construtivismo russo que foi um movimento estético-político iniciado na Rússia a partir de 1913, como parte do contexto dos movimentos de vanguarda no país, de forte influência na arquitetura e na arte ocidental. Ele negava uma "arte pura" e procurava abolir a ideia de que a arte é um elemento especial da criação humana, separada do mundo cotidiano. A arte, inspirada pelas novas conquistas do revolucionário Estado Operário, deveria se inspirar nas novas perspectivas abertas pelas técnicas e materiais modernos servindo a objetivos sociais e a construção de um mundo socialista. O termo arte construtivista foi introduzido pela primeira vez por Malevich para descrever o trabalho de Rodchenko em 1917.

 Foi visto o Movimento "Manifesto Surrealista "  de  André Breton em 1924, que trouxe para o mundo um novo modo de encarar a arte.

 Impunha o chamado automatismo psíquico, "estado puro, mediante o qual se propunha transmitir verbalmente, por escrito, ou por qualquer outro meio o funcionamento do pensamento; ditado do pensamento, suspenso qualquer controle exercido pela razão, alheio a qualquer preocupação estética ou moral".

 Alguns de suas citações:

 “A atitude realista é fruto da mediocridade, do ódio, e da presunção rasteira. É dela que nascem os livros que insultam a inteligência.”

 “A mania incurável de reduzir o desconhecido ao conhecido, ao classificável, só serve para entorpecer cérebros.”

 “Hoje em dia, os métodos da lógica só servem para resolver problemas secundários”.

“A extrema diferença de importância que, aos olhos do observador ordinário, tem os acontecimentos de vigília e os do sono sempre me encheu de espanto. (...) Talvez o meu sonho da noite passada tenha dado prosseguimento ao da noite anterior e continue na próxima noite com rigor meritório.”

“Digamo-lo claramente de uma vez por todas: o maravilhoso é sempre belo; qualquer tipo de maravilhoso é belo, só o maravilhoso é belo. (...) Desde cedo as crianças são apartadas do maravilhoso, de modo que, quando crescem, já não possuem uma virgindade de espírito que lhes permita sentir extremo prazer na leitura de um conto infantil.”

“Oxalá chegue o dia em que a poesia decrete o fim do dinheiro e rompa sozinha o pão do céu na terra.”

"Em homenagem a Guillaume ApollinaireSoulpault e eu, André Breton, demos o nome de "surrealismo" ao novo modo de expressão que tínhamos à nossa disposição e que estávamos ansiosos por colocar ao alcance de nossos amigos”.

“O surrealismo não permite aos que a ele se consagram, abandoná-lo quando lhes apetece fazê lo. Ele atua sobre a mente como os entorpecentes e muitos outros de épocas relacionadas.

“A mente que mergulha no surrealismo revive, com exaltação, a melhor parte de sua infância.”

"Imaginação querida, o que sobretudo amo em ti é não perdoares."

"Só o que me exalta ainda é a única palavra: liberdade. Eu a considero apropriada para manter, indefinidamente, o velho fanatismo humano." 

 

 Depois vimos o movimento Dadaísta, de Marcel Duchamp,  movimento que propunha a oposição por qualquer tipo de equilíbrio e o Movimento Abstracionista dos anos 50, de Pollock, Rothko,  de emoções transformadas em cores e formas. 

  A partir desta época, as Artes Visuais, e também as Artes Literárias,  as Artes da Música, podem ser expressas mais livremente, tais como sentimos e abrindo com isto uma possibilidade infinita de expressões artísticas,  ligadas ao Individualismo, do sujeito como indivíduo singular, com personalidade própria, numa transição do subjetivismo clássico, do sujeito como parte de um todo, ao sujeito único, singular.  

 

Bibliografia :

                      Aulas do Professor Noel 

                          Wikipédia - Internet.  

 

 

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

BELEZA E INTERIORIDADE


Por Thereza C. Rothier Wachholz

(parte 1) 

     Na   Grécia antiga, a beleza estava atrelada à simetria. 

     “Platão tem duas concepções da beleza que foram elaboradas através dos séculos: a beleza como harmonia e proporção das partes (deriva de Pitágoras) e a beleza como esplendor exposta no Fedro, que influenciará o pensamento neoplatônico. Para Platão a visão sensível deveria ser superada pela visão intelectual”. (História da Beleza -Umberto Eco- Record, 2004).

     Para este filósofo, a beleza não dependia de nenhum suporte físico, não seria correspondente ao que se vê. A feiura de Sócrates, por exemplo, carecia de importância, pois o que era relevante era a sua beleza interior. O intelectual suplantava o sensível.

     Para Platão a arte, sendo uma cópia, deveria ser banida das escolas e substituída pela beleza das formas geométricas consideradas universais.

     Isto vai sofrer uma transformação a partir de Descartes quando surge a importância do pensamento subjetivo: “Penso, logo existo”.

     A partir daí, sentimentos como melancolia, tristeza, pessimismo, esperança, passam a definir nossas ideias de beleza. Passa a haver uma avaliação estética interior quando o “eu” passa a dominar as sensações estéticas.

     Sair do pensamento estético dominante pode não ter sentido, mas já é de uma grande utilidade para nós. Fugir da nossa parte escura, do nosso interior, é um erro, pois este é muito importante. Quando amamos alguém, o fazemos pela beleza da simetria interior, pela verdade, pelo que ela é e não pelo que tem.

     Ao criarmos uma confiança pessoal criamos, ao mesmo tempo, um comportamento proativo que vai além da simples beleza física. 

     Quem tem confiança, tem em si uma série de vantagens. Poder receber e aceitar elogios, por exemplo. Nos desvalorizamos muitas vezes, por não acreditarmos na veracidade dos cumprimentos que recebemos.

     Pode parecer estranho, mas a verdade tem uma organização própria. É feliz quem organiza seu pensamento e tem a coragem de expô-lo. O que é verdade, o é para mim. Por isso amamos esta organização de pensamento e buscamos além de nós a verdade que nos falta e existe para o outro ou no outro. É neste momento que surge o que podemos denominar: empatia.

     Esta verdade não é reconhecida por nós de forma explícita, mas é algo que está em nossa lembrança e que nos liga àquela pessoa. Esta é a beleza organizada que se define para nós como intimidade. Seria o encontro de duas almas, de duas individualidades.  Assim, para buscar o belo, a verdade no outro, temos que buscar o simbólico que habita em sua parte interior, oculta.

     Poderíamos descrever o encontro da verdade como a reunião de duas memórias. Quando estas se encontram você se emociona porque há um encontro de intimidades.

    Para nos aproximarmos de alguém é importante buscar algo pessoal que nos emocione. O medo de nos “abrir” nos retesa, mas só entregando algo verdadeiro conseguiremos estabelecer uma relação.

     Sem sairmos da superfície, sem peculiaridade, sem esforço, não há intimidade. Sem esforço não há o amor, não há a escrita: a verdade é o esforço.

     Para alcançarmos o sublime temos que fazê-lo através do esforço, que transcende a superficialidade. 

quarta-feira, 9 de setembro de 2020

Modernidade: A passagem do Sujeito à Individualidade


Martha De Aratanha

 

Desde a Antiguidade, a Arte estava subordinada a parâmetros racionais e geométricos. Por dois mil anos, o Pensamento submeteu o Belo à Razão. A noção de gosto estético surge no séc. XVI na Itália, Espanha, França e Inglaterra. O Empirismo britânico vai inaugurar a Estética Subjetiva: o Belo não vai mais ser consenso.

A partir da primeira Modernidade veremos surgir a Subjetividade. 

Descartes, cientista racionalista moderno, faz uma crítica à Metafísica clássica em três etapas;

1)    Conceito de dúvida hiperbólica (exagerada) de todas as tradições,

2)    O Sujeito é o ponto de apoio (Cogito),

3)    O Sujeito faz, pelo pensamento, o exame crítico.

As Guerras de Religião na Europa, o declínio da Monarquia Absoluta, a ascendência da Burguesia comercial vão engredrar mudanças na Política, da seguinte maneira:

1)    O homem na Natureza, e como ele se comporta sem Instituições,

2)   A noção de povo como sujeito de direito; convívio político pacífico; surge a noção de Sociedade dos Indivíduos: Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (1789, preconiza direitos naturais e igualdade entre os cidadãos)

3)   Reconstruir as verdades objetivas, a partir do critério do sujeito pensante. O Sujeito surge com o Estado.

Na Estética, as transformações são:

1)    O Belo não é racional,

2)    Identificação de um critério para  distinguir entre o Belo e o Feio, que não seja racional (o Gosto estético). O gosto vai delimitar os limites entre o Belo e o Feio; a harmonia é substituída pela interiorização da sensibilidade;

3)    Porém, como os sujeitos se comunicam em relação à obra de Arte? Como achar o senso comum, se não há objetividade? Kant propõe: “O gosto não se disputa, mas o gosto se discute!”. A discussão artística está em aberto. Não há consenso, pois é subjetiva, mas há discussão.

Portanto, vemos que mudanças na sociedade política engendram necessariamente mudanças metafísicas e estéticas. 

Vemos isso no caminho estético percorrido pelas artes pictóricas:

- os quadros do século XV são expressão da Arte Sacra: Madonas e trípticos.

- nos quadros do século XVI há a redescoberta da Perspectiva Euclidiana (retorno ao Clássico Grego)

- no século XVII começam a surgir cenas do quotidiano, o Sujeito surge nas composições.

- no século XVIII, cenas mitológicas, de eras passadas da Antiguidade Clássica. 

- no século XIX, surgem quadros que retratam os acontecimentos políticos. Passagem do Sujeito ao Indivíduo: Impressionismo.

-  no século XX: Dadaísmo, Cubismo, Surrealismo são expressões do Indivíduo. O Indivíduo diante da impossibilidade de se comunicar, pois toda comunicação entre pessoas é parcial, passa a expressar seu imo.


O Sujeito representa; o Indivíduo se expressa

 O Sujeito ainda acredita na comunicação das emoções. No século XXI, o Indivíduo não precisa comunicar. Essa concepção de subjetividade surge junto com as teorias políticas. Essa passagem do Sujeito ao Indivíduo é um reflexo das mudanças tecnológicas e políticas. A tecnologia gera novas relações entre as pessoas e força mudanças nas relações políticas, que por sua vez, engendra uma nova sociedade.

Com o desenvolvimento da consciência de si nos povos, e com as novas tecnologias (Facebook, Whatsapp, etc...) o indivíduo passa a se expressar de modo mais amplo, constatamos que o ser humano se civiliza ao discutir: esse é o veículo das racionalizações das relações humanas. 

 A Contemporaneidade é justamente a radicalização da Modernidade. A Arte passa a expressar o Indivíduo.  Com a tecnologia, as relações se horizontalizam, e isso reflete na Política.

A independência do Indivíduo do Estado já está acontecendo. 


 Que Novo Mundo é esse que surge?

 



[1] Alguns povos (Rússia) e civilizações antigas (China) ainda estão presos a modelos ditatoriais e tirânicos.

terça-feira, 2 de junho de 2020

A Pandemia e os Encontros

A conjuração dos losers
E se o vírus foi criado em laboratório para que todos os losers do
planeta pudessem recuperar seus ex?

Paul B. Preciado
(br/autores/paul-b-preciado) 29mar2020 09h15

Fiquei doente em Paris na quarta-feira 11 de março, antes do decreto do governo
francês que determinou o confinamento da população, e assim que saí do leito,
no dia 19, pouco mais de uma semana depois, o mundo tinha mudado. Quando
me deitei, o mundo estava próximo, coletivo, viscoso e sujo. Quando saí do leito,
tinha se tornado distante, individual, seco e higiênico. Durante a doença, eu não
conseguia avaliar o que acontecia do ponto de vista político ou econômico, pois a
febre e o desconforto se sobrepunham à minha energia vital. Ninguém é filósofo
enquanto a cabeça está explodindo. De vez em quando eu olhava as news, o que
só aumentava o mal-estar. A realidade era indissociável de um sonho ruim, e a
primeira página dos jornais era mais desestabilizante que o pior pesadelo
causado pelos meus delírios febris. Durante dois dias inteiros, decidi não abrir
nenhum site na internet, como uma prescrição anti-ansiedade. É a isso e ao óleo
essencial de orégano que atribuo a minha cura. Não tive dificuldade em respirar,
mas tive dificuldade em pensar que continuaria a respirar. Não tinha medo de
morrer. Tinha medo de morrer sozinho. Entre a febre e a ansiedade, pensei que
os parâmetros de organização do comportamento social tinham mudado para
sempre e não poderiam nunca mais ser modificados. Foi o que senti, com a força
de uma evidência que me atravessava o peito, à medida que a minha respiração
se tornava mais fácil. Tudo permaneceria para sempre nessa nova forma que as
coisas tomaram. A partir de então, teríamos acesso a formas de consumo digitais
sempre mais excessivas, mas os nossos corpos, os nossos organismos físicos,
seriam privados de todo contato e de toda vitalidade. A mutação tomaria a forma
de uma cristalização da vida orgânica, de uma digitalização do trabalho e do
consumo, e de uma desmaterialização do desejo.

Os que eram casados a partir de agora estavam condenados a viver confinados 24
horas por dia com a pessoa que esposaram, não importa se a amassem ou a
detestassem, ou melhor, os dois ao mesmo tempo, o que, diga-se de passagem, é a
coisa mais comum: o casal é regido por uma lei da física quântica segundo a qual
não há oposição entre termos contrários, mas por uma simultaneidade de fatos
dialéticos. Nessa nova realidade, aqueles dentre nós que perderam o amor ou que
não o encontraram a tempo, ou seja, antes da grande mutação do Covid-19,
estávamos condenados a passar o resto da vida completamente sós.
Sobreviveríamos, mas sem toque, sem pele. Os que não ousaram dizer a alguém
que amavam que o amavam não poderiam se juntar a ele, nem mesmo se fosse
possível expressar o seu amor, e deviam agora viver para sempre na espera
impossível de um encontro físico que não acontecerá nunca. Os que escolheram
viajar ficarão para sempre do outro lado da fronteira, e os burgueses que foram
para a praia ou para o interior para passar os dias de confinamento em suas
agradáveis residências secundárias (tadinhos!) nunca mais poderão retornar à
cidade. As casas deles seriam requisitadas para receber os sem-teto que, por sua
vez, à diferença dos ricos, viviam permanentemente na cidade. Tudo seria fixado
sob a forma nova e imprevisível que as coisas tomaram depois do vírus. O que
parecia ser um encerramento temporário seria prolongado pelo resto da vida.
Talvez as coisas mudassem de novo, mas não para aqueles que entre nós
tínhamos mais de quarenta anos. Era isso a nova realidade. A vida depois da
grande mutação. Perguntei-me, então, se valeria a pena continuar a viver assim.
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A primeira coisa que fiz ao sair da cama depois de ficar doente com o vírus
durante uma semana tão imensa e estranha quanto um novo continente foi me
fazer esta pergunta: em quais condições e de que maneira valeria a pena
continuar a viver? A segunda coisa, antes de encontrar uma resposta para esta
pergunta, foi escrever uma carta de amor. De todas as teorias da conspiração que
li, a que mais me seduziu foi aquela que diz que o vírus foi criado por um
laboratório para que todos os losers do planeta pudessem recuperar os seus ex,
sem por isso serem verdadeiramente obrigados a reatar com eles.
Salpicada com o lirismo e a angústia acumulados durante uma semana de
doença, medos e dúvidas, a minha carta a Ex não era apenas uma declaração de
amor tão poética quanto desesperada, mas era principalmente um documento
vergonhoso para quem assinava. Mas, se as coisas não podiam mais mudar, se
aqueles que estavam longe não pudessem nunca mais se tocar de novo, que
importância teria o fato de ser assim tão ridícula? Que importância haveria agora
em dizer à pessoa amada que você a ama, sabendo que muito provavelmente ela
já esqueceu você, ou substituiu, que de qualquer maneira você não a puder rever
nunca mais? O novo estado de coisas, em sua imobilidade escultural, estabelecia
um novo grau de what the fuck, até de seu próprio ridículo.
Escrevi aquela linda e horrivelmente patética carta à mão, pus num envelope
branquíssimo e escrevi nele, com minha melhor caligrafia, o nome e o endereço
de Ex. Me vesti, pus máscara, luvas e sapatos, os quais havia deixado na porta, e
desci até a entrada do prédio. Ali, seguindo a regra do confinamento, não saí à
rua, mas me dirigi até o lixo, no pátio interno. Abri a caçamba amarela e joguei a
minha carta a Ex – era de papel reciclável. Subi novamente, devagar, até o meu
apartamento. Deixei os sapatos na porta. Entrei, tirei a calça e guardei numa
sacola de plástico, retirei a máscara e deixei na varanda, para arejar, tirei as luvas
e joguei no lixo, lavei as mãos durante dois intermináveis minutos. Tudo,
absolutamente tudo, estava fixado na forma tomada depois da grande mutação.

Voltei ao meu computador e abri o meu correio eletrônico: e lá estava uma
mensagem de Ex, intitulada “Estou pensando em você durante a crise do vírus”.
(Tradução de Paulo Werneck)
Publicado em https://www.quatrocincoum.com.br/br/artigos/f/a-conjuracao-dos-losers


                                                 VIRUS : ENCONTROS E DESENCONTROS
 por Thereza Wachholz
     A  pandemia nos deixa nostálgicos, cheios de lembranças. Tenho vontade de saber, de saber notícias...
     Voltam à minha mente pessoas queridas que um dia fizeram parte integrante da minha vida e ... que, se perderam, no torvelinho da mesma. Foram encontros que fugiram apenas por circunstâncias do destino. 
    Fizeram, sem querer, querendo, parte da minha construção pessoal, foram “bons encontros”, como diria o filósofo Spinoza.
    Dá saudades, saudades do que foi e do que não foi, mas a conclusão que chego ao longo dessa trajetória do covid é que na correria do dia a dia vamos simplesmente perdendo pessoas, perdendo lembranças, largando tudo pelo caminho
     De repente, ficamos em casa, cheios de lembranças e sonhos. E a vida mudou, você mudou, tudo mudou.
     Talvez por diferenças planetárias ou galácticas, não possamos mais nos reencontrar.
     A medida em que vamos envelhecendo temos até medo de tentar. Deve ser o medo de uma separação definitiva, o medo da morte. E passamos a nos perguntar será que ele ou ela ainda vive? 
     Agora o vírus passa a tornar esse devaneio um pensamento atual. 
     No presente, há um motivo para ligar: saber como vai passando nestes dias de reclusão. 
     E foi assim, nesta checagem, que nos demos conta que um amigo que não víamos há dois anos, havia falecido: estarrecedor. Tinha ocorrido no final do ano passado e nem foi de covid! Estava idoso, tinha parado de nos encontrar, engajado nas múltiplas tarefas do dia a dia. Tragado primeiro pela memória do deixar para depois, a seguir, pela intensa correria da vida. 
     Sem adeus, como os atuais pacientes que falecem de covid, resta apenas a saudade, a nossa lembrança: a falta de um alegre sorriso, emoldurado por aquele brilhante dia de sol que iluminava o campo de golfe do Itanhangá Golf Clube no rigor do verão.
     Após ler o texto acima, do filósofo espanhol Paul Preciado, tenho a todos um conselho a dar, de um ser tremendamente triste e arrependido. Não largue nenhum ex pelo caminho. Toque para ele/ela, agora. Faça uma conexão.
A propósito, por onde andam minha amiga Sandra, que pulava corda comigo no recreio aos seis anos, junto com a Regininha?