quinta-feira, 10 de setembro de 2020

BELEZA E INTERIORIDADE


Por Thereza C. Rothier Wachholz

(parte 1) 

     Na   Grécia antiga, a beleza estava atrelada à simetria. 

     “Platão tem duas concepções da beleza que foram elaboradas através dos séculos: a beleza como harmonia e proporção das partes (deriva de Pitágoras) e a beleza como esplendor exposta no Fedro, que influenciará o pensamento neoplatônico. Para Platão a visão sensível deveria ser superada pela visão intelectual”. (História da Beleza -Umberto Eco- Record, 2004).

     Para este filósofo, a beleza não dependia de nenhum suporte físico, não seria correspondente ao que se vê. A feiura de Sócrates, por exemplo, carecia de importância, pois o que era relevante era a sua beleza interior. O intelectual suplantava o sensível.

     Para Platão a arte, sendo uma cópia, deveria ser banida das escolas e substituída pela beleza das formas geométricas consideradas universais.

     Isto vai sofrer uma transformação a partir de Descartes quando surge a importância do pensamento subjetivo: “Penso, logo existo”.

     A partir daí, sentimentos como melancolia, tristeza, pessimismo, esperança, passam a definir nossas ideias de beleza. Passa a haver uma avaliação estética interior quando o “eu” passa a dominar as sensações estéticas.

     Sair do pensamento estético dominante pode não ter sentido, mas já é de uma grande utilidade para nós. Fugir da nossa parte escura, do nosso interior, é um erro, pois este é muito importante. Quando amamos alguém, o fazemos pela beleza da simetria interior, pela verdade, pelo que ela é e não pelo que tem.

     Ao criarmos uma confiança pessoal criamos, ao mesmo tempo, um comportamento proativo que vai além da simples beleza física. 

     Quem tem confiança, tem em si uma série de vantagens. Poder receber e aceitar elogios, por exemplo. Nos desvalorizamos muitas vezes, por não acreditarmos na veracidade dos cumprimentos que recebemos.

     Pode parecer estranho, mas a verdade tem uma organização própria. É feliz quem organiza seu pensamento e tem a coragem de expô-lo. O que é verdade, o é para mim. Por isso amamos esta organização de pensamento e buscamos além de nós a verdade que nos falta e existe para o outro ou no outro. É neste momento que surge o que podemos denominar: empatia.

     Esta verdade não é reconhecida por nós de forma explícita, mas é algo que está em nossa lembrança e que nos liga àquela pessoa. Esta é a beleza organizada que se define para nós como intimidade. Seria o encontro de duas almas, de duas individualidades.  Assim, para buscar o belo, a verdade no outro, temos que buscar o simbólico que habita em sua parte interior, oculta.

     Poderíamos descrever o encontro da verdade como a reunião de duas memórias. Quando estas se encontram você se emociona porque há um encontro de intimidades.

    Para nos aproximarmos de alguém é importante buscar algo pessoal que nos emocione. O medo de nos “abrir” nos retesa, mas só entregando algo verdadeiro conseguiremos estabelecer uma relação.

     Sem sairmos da superfície, sem peculiaridade, sem esforço, não há intimidade. Sem esforço não há o amor, não há a escrita: a verdade é o esforço.

     Para alcançarmos o sublime temos que fazê-lo através do esforço, que transcende a superficialidade. 

quarta-feira, 9 de setembro de 2020

Modernidade: A passagem do Sujeito à Individualidade


Martha De Aratanha

 

Desde a Antiguidade, a Arte estava subordinada a parâmetros racionais e geométricos. Por dois mil anos, o Pensamento submeteu o Belo à Razão. A noção de gosto estético surge no séc. XVI na Itália, Espanha, França e Inglaterra. O Empirismo britânico vai inaugurar a Estética Subjetiva: o Belo não vai mais ser consenso.

A partir da primeira Modernidade veremos surgir a Subjetividade. 

Descartes, cientista racionalista moderno, faz uma crítica à Metafísica clássica em três etapas;

1)    Conceito de dúvida hiperbólica (exagerada) de todas as tradições,

2)    O Sujeito é o ponto de apoio (Cogito),

3)    O Sujeito faz, pelo pensamento, o exame crítico.

As Guerras de Religião na Europa, o declínio da Monarquia Absoluta, a ascendência da Burguesia comercial vão engredrar mudanças na Política, da seguinte maneira:

1)    O homem na Natureza, e como ele se comporta sem Instituições,

2)   A noção de povo como sujeito de direito; convívio político pacífico; surge a noção de Sociedade dos Indivíduos: Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (1789, preconiza direitos naturais e igualdade entre os cidadãos)

3)   Reconstruir as verdades objetivas, a partir do critério do sujeito pensante. O Sujeito surge com o Estado.

Na Estética, as transformações são:

1)    O Belo não é racional,

2)    Identificação de um critério para  distinguir entre o Belo e o Feio, que não seja racional (o Gosto estético). O gosto vai delimitar os limites entre o Belo e o Feio; a harmonia é substituída pela interiorização da sensibilidade;

3)    Porém, como os sujeitos se comunicam em relação à obra de Arte? Como achar o senso comum, se não há objetividade? Kant propõe: “O gosto não se disputa, mas o gosto se discute!”. A discussão artística está em aberto. Não há consenso, pois é subjetiva, mas há discussão.

Portanto, vemos que mudanças na sociedade política engendram necessariamente mudanças metafísicas e estéticas. 

Vemos isso no caminho estético percorrido pelas artes pictóricas:

- os quadros do século XV são expressão da Arte Sacra: Madonas e trípticos.

- nos quadros do século XVI há a redescoberta da Perspectiva Euclidiana (retorno ao Clássico Grego)

- no século XVII começam a surgir cenas do quotidiano, o Sujeito surge nas composições.

- no século XVIII, cenas mitológicas, de eras passadas da Antiguidade Clássica. 

- no século XIX, surgem quadros que retratam os acontecimentos políticos. Passagem do Sujeito ao Indivíduo: Impressionismo.

-  no século XX: Dadaísmo, Cubismo, Surrealismo são expressões do Indivíduo. O Indivíduo diante da impossibilidade de se comunicar, pois toda comunicação entre pessoas é parcial, passa a expressar seu imo.


O Sujeito representa; o Indivíduo se expressa: 

 O Sujeito ainda acredita na comunicação das emoções. No século XXI, o Indivíduo não precisa comunicar. Essa concepção de subjetividade surge junto com as teorias políticas. Essa passagem do Sujeito ao Indivíduo é um reflexo das mudanças tecnológicas e políticas. A tecnologia gera novas relações entre as pessoas e força mudanças nas relações políticas, que por sua vez, engendra uma nova sociedade.

Com o desenvolvimento da consciência de si nos povos, e com as novas tecnologias (Facebook, Whatsapp, etc...) o indivíduo passa a se expressar de modo mais amplo, constatamos que o ser humano se civiliza ao discutir: esse é o veículo das racionalizações das relações humanas. 

 A Contemporaneidade é justamente a radicalização da Modernidade. A Arte passa a expressar o Indivíduo.  Com a tecnologia, as relações se horizontalizam, e isso reflete na Política.

A independência do Indivíduo do Estado já está acontecendo. 


 Que Novo Mundo é esse que surge?

 



[1] Alguns povos (Rússia) e civilizações antigas (China) ainda estão presos a modelos ditatoriais e tirânicos.

terça-feira, 2 de junho de 2020

A Pandemia e os Encontros

A conjuração dos losers
E se o vírus foi criado em laboratório para que todos os losers do
planeta pudessem recuperar seus ex?

Paul B. Preciado
(br/autores/paul-b-preciado) 29mar2020 09h15

Fiquei doente em Paris na quarta-feira 11 de março, antes do decreto do governo
francês que determinou o confinamento da população, e assim que saí do leito,
no dia 19, pouco mais de uma semana depois, o mundo tinha mudado. Quando
me deitei, o mundo estava próximo, coletivo, viscoso e sujo. Quando saí do leito,
tinha se tornado distante, individual, seco e higiênico. Durante a doença, eu não
conseguia avaliar o que acontecia do ponto de vista político ou econômico, pois a
febre e o desconforto se sobrepunham à minha energia vital. Ninguém é filósofo
enquanto a cabeça está explodindo. De vez em quando eu olhava as news, o que
só aumentava o mal-estar. A realidade era indissociável de um sonho ruim, e a
primeira página dos jornais era mais desestabilizante que o pior pesadelo
causado pelos meus delírios febris. Durante dois dias inteiros, decidi não abrir
nenhum site na internet, como uma prescrição anti-ansiedade. É a isso e ao óleo
essencial de orégano que atribuo a minha cura. Não tive dificuldade em respirar,
mas tive dificuldade em pensar que continuaria a respirar. Não tinha medo de
morrer. Tinha medo de morrer sozinho. Entre a febre e a ansiedade, pensei que
os parâmetros de organização do comportamento social tinham mudado para
sempre e não poderiam nunca mais ser modificados. Foi o que senti, com a força
de uma evidência que me atravessava o peito, à medida que a minha respiração
se tornava mais fácil. Tudo permaneceria para sempre nessa nova forma que as
coisas tomaram. A partir de então, teríamos acesso a formas de consumo digitais
sempre mais excessivas, mas os nossos corpos, os nossos organismos físicos,
seriam privados de todo contato e de toda vitalidade. A mutação tomaria a forma
de uma cristalização da vida orgânica, de uma digitalização do trabalho e do
consumo, e de uma desmaterialização do desejo.

Os que eram casados a partir de agora estavam condenados a viver confinados 24
horas por dia com a pessoa que esposaram, não importa se a amassem ou a
detestassem, ou melhor, os dois ao mesmo tempo, o que, diga-se de passagem, é a
coisa mais comum: o casal é regido por uma lei da física quântica segundo a qual
não há oposição entre termos contrários, mas por uma simultaneidade de fatos
dialéticos. Nessa nova realidade, aqueles dentre nós que perderam o amor ou que
não o encontraram a tempo, ou seja, antes da grande mutação do Covid-19,
estávamos condenados a passar o resto da vida completamente sós.
Sobreviveríamos, mas sem toque, sem pele. Os que não ousaram dizer a alguém
que amavam que o amavam não poderiam se juntar a ele, nem mesmo se fosse
possível expressar o seu amor, e deviam agora viver para sempre na espera
impossível de um encontro físico que não acontecerá nunca. Os que escolheram
viajar ficarão para sempre do outro lado da fronteira, e os burgueses que foram
para a praia ou para o interior para passar os dias de confinamento em suas
agradáveis residências secundárias (tadinhos!) nunca mais poderão retornar à
cidade. As casas deles seriam requisitadas para receber os sem-teto que, por sua
vez, à diferença dos ricos, viviam permanentemente na cidade. Tudo seria fixado
sob a forma nova e imprevisível que as coisas tomaram depois do vírus. O que
parecia ser um encerramento temporário seria prolongado pelo resto da vida.
Talvez as coisas mudassem de novo, mas não para aqueles que entre nós
tínhamos mais de quarenta anos. Era isso a nova realidade. A vida depois da
grande mutação. Perguntei-me, então, se valeria a pena continuar a viver assim.
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A primeira coisa que fiz ao sair da cama depois de ficar doente com o vírus
durante uma semana tão imensa e estranha quanto um novo continente foi me
fazer esta pergunta: em quais condições e de que maneira valeria a pena
continuar a viver? A segunda coisa, antes de encontrar uma resposta para esta
pergunta, foi escrever uma carta de amor. De todas as teorias da conspiração que
li, a que mais me seduziu foi aquela que diz que o vírus foi criado por um
laboratório para que todos os losers do planeta pudessem recuperar os seus ex,
sem por isso serem verdadeiramente obrigados a reatar com eles.
Salpicada com o lirismo e a angústia acumulados durante uma semana de
doença, medos e dúvidas, a minha carta a Ex não era apenas uma declaração de
amor tão poética quanto desesperada, mas era principalmente um documento
vergonhoso para quem assinava. Mas, se as coisas não podiam mais mudar, se
aqueles que estavam longe não pudessem nunca mais se tocar de novo, que
importância teria o fato de ser assim tão ridícula? Que importância haveria agora
em dizer à pessoa amada que você a ama, sabendo que muito provavelmente ela
já esqueceu você, ou substituiu, que de qualquer maneira você não a puder rever
nunca mais? O novo estado de coisas, em sua imobilidade escultural, estabelecia
um novo grau de what the fuck, até de seu próprio ridículo.
Escrevi aquela linda e horrivelmente patética carta à mão, pus num envelope
branquíssimo e escrevi nele, com minha melhor caligrafia, o nome e o endereço
de Ex. Me vesti, pus máscara, luvas e sapatos, os quais havia deixado na porta, e
desci até a entrada do prédio. Ali, seguindo a regra do confinamento, não saí à
rua, mas me dirigi até o lixo, no pátio interno. Abri a caçamba amarela e joguei a
minha carta a Ex – era de papel reciclável. Subi novamente, devagar, até o meu
apartamento. Deixei os sapatos na porta. Entrei, tirei a calça e guardei numa
sacola de plástico, retirei a máscara e deixei na varanda, para arejar, tirei as luvas
e joguei no lixo, lavei as mãos durante dois intermináveis minutos. Tudo,
absolutamente tudo, estava fixado na forma tomada depois da grande mutação.

Voltei ao meu computador e abri o meu correio eletrônico: e lá estava uma
mensagem de Ex, intitulada “Estou pensando em você durante a crise do vírus”.
(Tradução de Paulo Werneck)
Publicado em https://www.quatrocincoum.com.br/br/artigos/f/a-conjuracao-dos-losers


                                                 VIRUS : ENCONTROS E DESENCONTROS
 por Thereza Wachholz
     A  pandemia nos deixa nostálgicos, cheios de lembranças. Tenho vontade de saber, de saber notícias...
     Voltam à minha mente pessoas queridas que um dia fizeram parte integrante da minha vida e ... que, se perderam, no torvelinho da mesma. Foram encontros que fugiram apenas por circunstâncias do destino. 
    Fizeram, sem querer, querendo, parte da minha construção pessoal, foram “bons encontros”, como diria o filósofo Spinoza.
    Dá saudades, saudades do que foi e do que não foi, mas a conclusão que chego ao longo dessa trajetória do covid é que na correria do dia a dia vamos simplesmente perdendo pessoas, perdendo lembranças, largando tudo pelo caminho
     De repente, ficamos em casa, cheios de lembranças e sonhos. E a vida mudou, você mudou, tudo mudou.
     Talvez por diferenças planetárias ou galácticas, não possamos mais nos reencontrar.
     A medida em que vamos envelhecendo temos até medo de tentar. Deve ser o medo de uma separação definitiva, o medo da morte. E passamos a nos perguntar será que ele ou ela ainda vive? 
     Agora o vírus passa a tornar esse devaneio um pensamento atual. 
     No presente, há um motivo para ligar: saber como vai passando nestes dias de reclusão. 
     E foi assim, nesta checagem, que nos demos conta que um amigo que não víamos há dois anos, havia falecido: estarrecedor. Tinha ocorrido no final do ano passado e nem foi de covid! Estava idoso, tinha parado de nos encontrar, engajado nas múltiplas tarefas do dia a dia. Tragado primeiro pela memória do deixar para depois, a seguir, pela intensa correria da vida. 
     Sem adeus, como os atuais pacientes que falecem de covid, resta apenas a saudade, a nossa lembrança: a falta de um alegre sorriso, emoldurado por aquele brilhante dia de sol que iluminava o campo de golfe do Itanhangá Golf Clube no rigor do verão.
     Após ler o texto acima, do filósofo espanhol Paul Preciado, tenho a todos um conselho a dar, de um ser tremendamente triste e arrependido. Não largue nenhum ex pelo caminho. Toque para ele/ela, agora. Faça uma conexão.
A propósito, por onde andam minha amiga Sandra, que pulava corda comigo no recreio aos seis anos, junto com a Regininha?
     

domingo, 17 de agosto de 2014

Você consegue encarar a tragédia que é a vida?



Você consegue encarar a tragédia que é a vida?

 A perda de pessoas queridas, a sua própria morte... para enfrentar isso criamos Deus. Deus torna a existência mais palatável, velando a crua realidade num sonho que aspiramos alcançar. Velar no sentido de véu, uma cortina opaca que nos protege da tragédia da realidade. Aliás, o nosso corpo é um véu, uma cortina que protege a nossa consciência da crua realidade, filtra a nossa apreensão do mundo. A realidade da qual tomamos consciência é apenas uma vista parcial da Substância.
A filosofia tem tentado por séculos se separar da teologia. Tirar Deus do pensamento filosófico não é fácil. Spinoza ao definir a Substância como Deus, tenta sutilmente, se apropriando de um vocabulário corrente, construir um outro arcabouço de pensamento que exclui o sobrenatural.
Mesmo hoje, o conceito de Substância é mal interpretado. No meu grupo de estudos há quem diga que Substância é o Universo. Mas qual a definição de Universo você está se referindo? No Ensino Médio aprendemos uma definição de Universo newtoniana, e hoje com a Teoria das Cordas temos o multiverso composto de vários universos. Nenhuma destas definições se aproxima da definição de Substância (segundo Spinoza).
A primeira definição supõe uma visão mecanicista, onde Descartes e Newton afirmam que o movimento é externo à matéria, introduzido por Deus no mundo material. Spinoza concebe movimento como completamente inerente à matéria e inseparável do corpo, portanto a Substância se expressando em seus modos.
A segunda definição supõe a visão da física quântica atual. A Teoria das Cordas, com multiversos, onde vários universos coexistem mas não se comunicam, tendo leis independentes e diferentes do nosso universo. Ora, Spinoza concebe a Substância como algo sujeito às suas próprias leis, contínuo e passível de entendimento pelo ser humano, através de ideias adequadas das causas. Portanto, não há descontinuidade.
Então, o termo Substância, segundo a definição de Spinoza, ainda é melhor, pois implica todos os conceitos acima.
Nos séculos seguintes a Spinoza, Deus foi finalmente afastado da filosofia e, com o cartesianismo e o empiricismo, a ciência foi se apropriando de várias discussões da filosofia. Por exemplo, como tomamos consciência do mundo sensível passou a ser um ramo da ciência. E a ciência também evoluiu para muitas outras áreas.  Então temos, de um lado, Deus suprindo a necessidade de velar a realidade para a nossa consciência, e do outro, a ciência tentando entender esta mesma realidade, a dos modos da Substância, com suas próprias leis e potencialmente cognoscível.
Se a filosofia tirou de dentro de si a teologia e a ciência...o que sobrou para filosofar? O homem. Ou seja, como os homens podem conviver entre homens. Daí a teoria dos afetos e o Tratado Político de Spinoza.
Mas isso é uma outra história.

sexta-feira, 21 de março de 2014

Reproduzo aqui o excelente artigo  de Nizan Guanaes, e concordo com ele!

Procura-se uma nova classe alta...
por Nizan Guanaes
O que os americanos e ingleses mais sofisticados têm em comum? Cultura.
Livros e dinheiro são uma mistura perfeita para elegância, savoir faire e bom gosto.
Infelizmente o Brasil, que copia tanta coisa destes dois grandes países, não aprendeu a copiar essa ainda. A pobreza do rapaz rico dos camarotes, estampada na capa da Vejinha, mostra uma classe alta inculta que beira as raias do constrangimento num país cheio de desigualdades.
Ninguém que tenha aberto um livro será capaz de, num mundo desigual como o nosso, abrir champanhes magnum a rufar de tambores e piscar de luzes.
Dinheiro sem livro faz garotos ruidosos e meninas caladas. Gente mal vestida com as melhores grifes. E que não sabe se comportar no mundo.
Gente caipira.
A começar, não sabem falar inglês, inaceitável num mundo global. O mais lamentável ainda é que falam mal português também.
A vida social em Nova York e Londres se passa dentro de universidades e museus, misturando caridade, diversão e cultura. Quando você conversa com pessoas como Tina Brown e Arianna Huffington, elas não são apenas locomotivas sociais, elas são enciclopédias vivas. Sem cultura e sem refinamento intelectual, seremos sempre sinhozinhos e sinhazinhas capiras  mesmo que a gente compre todas as roupas, relógios, fivelas, todos os aviões e carros do mundo.
Este país, apesar de todos os desafios que tem, já é um gigante global. E além de uma nova classe média, ele precisa de uma nova classe alta.
Harvard, Yale, Stanford, Oxford, Cambridge… são centros sociais desse mundo moderno. É lá nessas escolas que se formam o establishment social que vai influir no mundo. No Brasil, nós ainda achamos que esse establishment se forma em Nammos, em Mikonos, ou no Club 55, em St.-Tropez.
Nasci no Pelourinho. Fui a uma universidade bem mais ou menos. Mas em vez de dar uma Ferrari pro meu filho, coloquei ele na melhor escola que São Paulo tem: a Graded. E ele, por conta própria, escolheu fazer o colegial em uma das melhores prep schools dos Estados Unidos. A escola Exeter foi fundada em 1781. Lá estudou Mark Zuckerberg. A biblioteca tem 250 mil livros. E Antonio está estudando latim, fazendo remo e sofrendo pra burro pra entrar na disciplina da escola. Mas isso sim é uma herança.
Meu filho leu mais do que eu, sabe mais do que eu. Está se tornando um homem melhor por dentro e por fora.
Eu acredito que desse jeito construo não só um futuro pra ele, mas construo um futuro melhor pro país. Eu me dedico pessoalmente à educação de minhas crianças. Cada uma tem seu caminho e seu estilo. Passei, por exemplo, uma semana mostrando a Antonio o que era Istambul. E três horas jantando com Zeca, eu e ele, num restaurante três estrelas Michelin em Osaka.
Os brasileiros melhores que nós formamos são a maior contribuição que podemos dar ao futuro desse país. Claro que o caminho não é fácil. Antonio, por exemplo, acostumado à boa vida de um menino em sua idade em São Paulo, luta para se enquadrar à vida espartana e focada em Exeter. Ao acompanhar meu filho e sua luta na tradicional escola, vejo de posição privilegiada como os Estados Unidos e a Inglaterra fabricam grandes mentes a ferro e fogo. Estudantes de história que viram fotógrafos ou vão fazer moda, ou simplesmente serão grandes anfitriões.
Mas em tudo que forem fazer terão a marca indelével da boa educação. E é isso, educação, que nós, a elite, desejamos e cobramos tanto para os pobres que eu cobro para os ricos. Porque é elite estudada, culta e sensível um dos maiores luxos que este país mais precisa.
No site da Al Jazeera do dia 18 de março de 2014 tem um artigo de Talha Jalal sobre "A Liberação da Mulher"
 http://www.aljazeera.com/indepth/opinion/2014/02/women-liberty-2014222143534187756.html
Gostaria de responder a este artigo da seguinte maneira.

Prezado Sr. Jalal,
 Seu artigo foi um sopro de esperança para as mulheres muçulmanas. E eu cito tres frases suas:
1) "...é essencial que mulheres ganhem status igual ao dos homens em sociedades que estão em transformação."
2) "...promover liberdade e igualdade para as mulheres..."
3) "A marca da liberdade é que toda mulher pode ser como quiser..."
Mas o que voce propõe para conseguir isto?  O que sugere para conseguir estas mudanças?
Como conciliar a Lei da Sharia com "Todos os seres humanos nascem e são livres e iguais em direitos"?


In Al Jazeera's site, there is an article by Tahla Jalal, "On Women's Liberation"
http://www.aljazeera.com/indepth/opinion/2014/02/women-liberty-2014222143534187756.html
I would like to broaden the discussion...


Dear Mr. Jalal,
Your article has inspired hope for muslim women. And I quote three phrases:
1) "...essential that women gain a status equal to that of men in the societies that are experiencing change"
2)"...promote freedom and equality for women..."
3)"The hallmark of liberty is that every woman may be the way she wants..."
How would you go about it? What do you suggest to promote these changes? How to reconcile Sharia Law with "All human beings are born free and equal in dignity and rights."?

domingo, 1 de abril de 2012

Os Infernos na Mitologia Grega

Na ultima aula surgiu a dúvida sobre como seria o Inferno para os gregos antigos.  Apos uma rápida pesquisa no Wikipedia, resumo assim:
Na mitologia grega, Os Infernos (no plural) designam o reino dos mortos. E' um lugar subterrâneo, onde reina o deus Hades. Pode ser chamado de o reino de Hades, ou simplesmente Hades.   E' diferente do Inferno cristão pelo seguinte:
O reino de Hades e' o lugar para onde todas as almas (psychai) vão após a morte, sem julgamento.  Elas são sombras, sem forças nem sentimentos...pura presença sem memória. E que podem ser invocadas, em geral por uma oferenda de sangue.

Essa representação evolui com o Orfismo e Platão.  Se introduz um julgamento post-mortem, baseado nas qualidades e defeitos de cada um perante um tribunal.
Com isso três lugares são possiveis:
- os Campos Elisios: onde heróis e pessoas virtuosas gozam merecido repouso após a morte.
- a Planicie de Asphodele: para as almas que tiveram uma existência morna e sem sentido.
- o Tartaro: o lugar mais profundo dos infernos.  O lugar onde se expiam suas faltas, onde todas as formas de tortura física ou psicológica são representadas. É uma região árida, monótona, com pântanos congelados, lagos de enxofre ou piche fervente, onde se banham as almas danadas.